Textos | Vasco de Carvalho

 

Brincadeira

Mamã,

O topinambo, nasce pelas alturas do sol, no quintal da Zefa?

O sapo, adora a serpente, encanta a dó dó, ou a doninha?

O pão, mete-se no forno, com o rabo da pá?

A agulha, fura, fura, até que cansa?

E a roupa suja, quando suja tem o aroma das batatas, ensopadas com enjoo?

É bom, de madrugada, quando o galo canta, a galinha cacareja, arrepia-se com o vento perfumado uns sopros aquecidos com aragem vermelha do cheiro do marisco?

Que assombro? Que paladar?

Vasco de Carvalho

BMCCB/FL Esp. V.C. 4503 (in Álbum Coisas Passadas)


 

A Mim

Pela simplicidade os contos não perdem,

Pela meiguice arranja-se o amor,

Pela tarde de calma suaviza a aragem,

Pela manhã doirada sente-se ardor.

Pelo campo distrai-se o camponês,

Pelo Olimpo vagueiam as aves,

Pelo assassínio morreu Inês,

Pelo canto perdem-se as beldades.

Pela Mulher perdem-se muitos crentes,

Pela Vida fazem-se aventuras,

Pela descrença perdem criaturas,

Pelo amor fazem-se os nubentes,

Pelo destino canta-se o fado,

Pelo crime perde-se o desgraçado.

Noite 10.30

8 Outubro 1910

Vasco de Carvalho

BMCCB/FL Esp. V.C. 4511 (in Álbum Coisas Passadas)


 

Esclarecimento

“Possuindo por trasladados originais existentes na “Torre do Tombo” as cópias das nossas freguesias que pelos seus Párocos responderam ao Inquérito feito em Portugal após o sismo de 1755, aqui ficam encadernadas por ser grande o valor destes documentos, em face da sua narração reflectindo o Julgado de Vermoim em 1758.

Como me custaram alto preço e na certeza minha de que até hoje ninguém do nosso Concelho viu, leu ou consultou os seus originais, poderão elas assim agrupadas permitir consultas futuras para o estudo histórico de Vila Nova de Famalicão no século XVIII, ao mesmo tempo que, deste modo resumidas ficam tendo um arrumo verdadeiramente condicionado.

Representando canseiras e tendo merecimento a sua condição, não sei se todos aqueles que o lerem com os “olhos do espírito”, lhe darão o devido valor histórico.

Em todo o caso – lega-se – na conta de bem querer à terra de Famalicão, pois, como filho seu, por ter nascido na freguesia de S. Julião de Calendário a meio da antiga Rua da Estação considerada Vila, e a quem, durante trinta anos por ambas dividido, prestei o meu auxiliar esforço trabalhador e monetário, mais este préstimo, relatando antiga época – assim lhe deixo, para relembrar também este passado nosso.

Fica ainda aqui a minha esperança, de que o futuro, dará provas de maior grandeza e prosperidade, à Terra – de Vila Nova de Famalicão.

Casa de Santa Maria

No Sábado dia 15 de Março de 1947

Vasco de Carvalho”

In “O Nosso Julgado de Vermoim”

BMCCB/FL

 

O Foral de Vila Nova

“… o  Foral de Vila Nova concedido em 1205 pelo Senhor rei D. Sancho I, dizia respeito a Vila Nova de Famalicão.

Vastas vezes em publicações – jornais e revistas – se tem referido este Foral mas sem conhecimento estudioso seu e sem nunca o terem visto…E deixe-se passar este pormenor. Ou seja, o estar crente ter sido eu o primeiro famalicense que, no seu original, o seu olhar poisou e o viu no esconderijo dos “Reservados”, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.”

Vasco de Carvalho

In “Velhos e novos Tempos de Vila Nova” – Bazar das Letras das Ciências e das Artes. Suplemento Literário de A Voz., 26 Abril 1958.

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