Escrita criativa

escrita criativa

Três meninas

Uma praia. Uma praia num lugar distante com areia esbranquiçada gasta pelas torturas sanguinolentas. A areia foi escavada e no mais fundo do fundo estão os corpos decepados para não mais serem amados.

(acrílico Luísa Correia Pereira)

Tiraram-lhes o corpo. Ficaram as cabeças ainda ensanguentadas pelo corte que lhes fizeram, que rolam pela areia. As cabeças estão muito bem penteadas com fitas coloridas e as algas entrecruzam-se neste crime de sangue torturado.

As cabeças têm o medo branco estampado nos rostos. São parecidos os rostos, irmãos na morte e vivos na inocência. Como conchas ovais, moluscos enterrados e dilacerados, espalhados pelo espaço.

Eram três meninas.

Uma onda lavou o último rasto de sangue.

Abril 2006

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Canção de Inverno

 

Um homem só. Não permanece inquieto, mas sempre só. As mãos em cima do teclado aguardam as memórias paralelas que lhe criam impressões para este momento.

Canção de Inverno, não se pode esquecer, e as memórias a arrebatá-lo. Sempre escolheu a solidão, nas tardes de qualquer ano, uma espécie de rouxinol do mato. Estudava numa casa alugada que era um lugar ermo, sem som. Detestava os gritos de qualquer parte, os ruídos de um livro a cair do nada, as camas a gemer e o som do fósforo quando reluz.

Pequenos sobressaltos pairam na sua mente mas não se esquece do que está a tocar naquele momento.

No Inverno, foi no Inverno que tudo aconteceu, que o ar gélido do norte lhe arrebatou os sentidos e o deixou abandonado na sua juventude sem nenhuma canção.

As suas mãos espraiam-se ao ritmo do pensar e o homem percebe quanto tempo perdeu de vida sem perceber o mundo, sobretudo a luz que o atormenta e o encerra num manto de finos sentimentos controversos.

O destino da solidão que traçou é sempre sublimado nos momentos em que termina de tocar, em que as suas mãos sossegam e o seu espírito se levanta, e mais uma vez no final de tocar Schumann, altura em que a sua loucura se cruza com a do compositor, que percebe, enfim, que o aplaudem.

Vai com ele o Inverno, tão só e tão pleno de graças.

Abril 2006

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A Pedra Filosofal

 

O que espero do Natal? O que queremos do Natal? Todos os anos me interrogo e decido que não quero as estrelas cintilantes  que vejo na rua, quero antes a única estrela, a de Belém; não quero o pai Natal desgastado e velho que nos transforma em consumistas, quero antes um menino que nos traz uma nova mensagem, que pode transformar o consumo em partilha e generosidade.

Tento que seja este o Natal que quero viver com os outros, com as minhas filhas, com quem trabalho, com quem convivo.

Acredito que podemos encontrar a Pedra Filosofal, tal como o Harry Potter, e transformar tudo em oiro e tornarmo-nos mais imortais, mais homens.

Dezembro 2000

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um vez, o valter hugo mae pediu-me para escrever a sua autobiografia. assim. no meu corpo escrevi a sua vida

 

do útero, nasci em saurimo, ex-henrique de carvalho em angola, e deram-me o nome de valter hugo. O resto da minha alegria da infância passei-a em paços de ferreira e vila do conde. o dia 25 de abril 74, em lisboa. quando me tornei mãe, em tom silencioso corpo de fuga, fiz-me em palavras e nasci poeta. interessa-me as energias filiais, a cobrição das filhas, e todos os temas materno criadores. criei a editora objecto cardíaco, na sequência deste amor pelo corpo e pelo o que o mantém vivo. oiço o requiem de mozart para eleger o coração, a vida e a liberdade sem limites, na edição do gardiner. interesso-me por alguns livros e escritores que trabalhem nesta maré, como colher na boca de herberto hélder, alucinações de um drogado de williams burroughs, este é o meu corpo de filipa melo, baudelaire, verlaine, kafka, gonçalo m. tavares, cláudia galhós. três minutos, desta maré, não são suficientes para dizer todos os nomes pelos quais me dedico a ler. estou escondido, na cor amarga do fim da tarde, a escrever. é sempre o livro das maldições, que me torna a personagem no homem mais triste do “nosso reino”. já fui editor nas quasi, que larguei por razões pop, insuficiências várias, como o último disco que comprei. nascerá mais um objecto, não cardíaco, mas visceral concerteza, amanhã. sem remorso.

Abril 2006 / Outubro 2007

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